Um sexo alucinante – Samantha

Não fui avisada sobre a parede de gesso, aquele sexo amador. Aquela que separava meu quarto do dele. Aliás, não fui avisada sobre ele. Maldito, corretor. Sequer fui avisada sobre as batidas de porta às duas, quatro, seis da matina. E tampouco sobre as vozes distintas, às vezes mistas e um pouco ácidas. Também não fui avisada sobre seu cheiro de lençol velho, puta de quinta e vodka com energético no elevador. E nem mesmo do rangido da sua cama que de tanto que na minha parede batia, mais parecia minha. Maldito, corretor.

Sobretudo, não fui avisada sobre a excitação que sentia em imaginar quem era “a da vez” no quarto ao lado. Ou quantas. Mas quanto a isso, eu tinha a minha forma de participar. Atenta ao menor dos ruídos, em silêncio pedia “Agora na parede, de costas. Não para.” E eu só conseguiria dormir depois que a toada nos gemidos tornassem-se música, então sono, então sonho. Então, eu. Um ritual diário de batidas de porta, som de garrafas pelo chão tintilando. Às vezes, copos quebrando. A indispensável melodia suave para aquelas, suponho fossem, as mais direitinhas. Que fazem uma certa prosa, o velho doce antes de se tornarem as conhecidas vogais. Tinha a voz ávida e arrastada mesmo de ressaca. E a mania de responder com o cigarro na boca, sempre pronto para acendê-lo. Não me lembro se já tinha visto seus olhos ou se mesmo por educação já falara comigo. Mas, pra mim, bastava saber que era o 302. Era uma questão de tempo.

Naquela noite, um encontro casual tirou a sorte grande e sem delongas o convite para entrar. Era sexo por diversão e vingança por prazer. Comecei a beijá-lo no corredor porque um beijo, quando bem dado, já diz o recado. No pescoço, na nuca, na orelha, do tipo molhado. Sentia a pressa de suas mãos percorrendo meu corpo, o aperto dos dedos. Toda timidez posta de lado, toda intimidade do acaso. Me beijava o queixo e logo o seio que enrijecia a cada toque. Meu corpo inteiro pulsava, vibrava. Seu zíper evidenciava um pau tão duro quanto a parede que me apoiava. Ofegante, levantei uma perna. E se preciso fosse, ele me comeria ali mesmo, no corredor. O teatro tinha que continuar. A porta do elevador abriu e ele surgiu acompanhado, como era de costume. Eu já estava tomada, sem as pernas no chão, com a calcinha na mão. Não fingi qualquer desconforto. Fitei-o nos olhos com um sorriso de canto de boca. Ele sabia que era pra ele. E respondeu da mesma forma, vidrado, excitado. Quase que procurando um jeito pra se livrar do seu e do meu caso.

Não tardei a entrar no apartamento bem à moda dele, batendo a porta, ligando o som, gemendo alto. Não o pouparia de nenhum detalhe sórdido que sua imaginação pudesse criar. Para o bom entendedor que se fazia parecer, perceberia mesmo que à contra gosto que essa noite eu o fizera ficar calado. Arrastei a mesa com aspereza. Ele sabia o porquê. De quatro me contorcia, empinava, me entregava. A vingança tinha um gosto delicioso, um pouco salgado, ardente e suado. O que antes era uma mera provocação se tornou um impetuoso devaneio. É bem difícil pensar quando tem a cabeça de um pau vibrante esfregando na sua buceta molhada. E eu gemia, rebolava, pedia pra ele bater. “Agora na parede, de costas.”, queria que metesse mesmo com força pra que eu desse o escândalo que tanto ouvira. Mas, dessa vez, seria meu escândalo, meu pau e minha parede de gesso. Agora ele estava avisado.

 

AS MULHERES SEGUNDO OS MEDÍOCRES.

Interessante mesmo é perceber que o machismo é também uma tendência feminina. E, inclusive, arrisco à dizer que foram as próprias mulheres que disseminaram seus princípios. Se você é do tipo que ainda fica consternada com a diferença do salário para a mesma função entre sexos opostos, é da minoria lúcida consciente da ponta do iceberg do qual se trata. A grande parte das mulheres, acomodada, conformada, só clama por justiça quando carrega à contragosto um par de chifres na cabeça. Sejamos francas, se cada uma sabe onde seu sapato aperta, muitas delas preferem andar descalças, ainda que se castigue de calos, do que enfrentar a realidade.

Acontece que além da opressão violentamente apaziguada pela desculpa do instinto masculino, a raça que deveria se unir pra que, no mínimo, desfaça a ideia de submissão há muito implantada – por elas mesmo, diga-se de passagem – parece ter prazer em reportar suas responsabilidades à outro. De tão surreal que me parece essa história, porque não, assimila-la à os tão sonhados contos de fadas em que trazem em notória exatidão a figura do príncipe encantado como o “tudo que lhe faltava”? Francamente, não dá para acreditar que a mesma garota que denota sua repleta felicidade à figura incompleta – geralmente, faltante de valores e princípios, mas de gorda conta bancária – tem qualquer noção de independência.

Ah, ela estuda porque ter ensino superior, hoje em dia, é o mínimo, mas em troca ele paga todas as contas. Ah, ela trabalha para ter seu próprio dinheiro, então, ela o poupa de gastos supérfluos para ela, mas os jantares, claro, são por conta dele. Ah, ela toma conta da casa, deixa tudo arrumado e limpo e, em troca, ele a custeia. Ela vai ao salão, faz compras, vai ao spa, tudo pra ele, óbvio. Então, ele que paga.

A mediocridade define as mulheres por elas mesmas. Ou seja, pra ser medíocre não é preciso ter sexo. A ínfima ideia de deveres e direitos atribuídos ao casal, nada mais é do que ação e reação. A partir do momento em que você aceita os paradigmas sociais de comportamento masculino, você é conivente com a submissão agregada ao cargo. De uma maneira clara e simples: se você acha que é realmente dever do homem que te banque, ainda que disponha dos mesmos recursos financeiros que ele, você merece também que ele te trate como um objeto porque você se sujeitou à essa situação.

Não sou hipócrita ao ponto de negar a satisfação de um jantar pago. Quem não gosta de ser mimada? Mas, posso confessar? Tudo na vida tem um preço e, às vezes, você paga mais do dinheiro. Não vale a pena se submeter a alguém que se ache seu dono ou que “não faz mais do que a obrigação” por um, dois, uma vida de jantares. Eventualmente, o valor em débito será um fardo ainda maior de se carregar. Aquelas que ainda defendem atitudes (cozinhar, lavar, varrer, etc e tal) como “papel da mulher” com a desculpa de ser por educação, escondem a real tentativa quase que desesperada de agradar à todo custo – visto que não tem muito o que oferecer – aqueles que consideram um bom partido. E nem sequer vou entrar no mérito da abusiva ideia que na cama vale fazer até o que não gosta – contanto que agrade o homem – pra não ofender as mesmas fãs de 50 tons de cinza que ainda insistem tragicamente em provar que depois de toda sacanagem, submissão, oportunismo e que, de fato, a personagem principal era uma versão sem graça da Bruna Surfistinha, tinha uma história de amor. Realmente, uma bela lição: aguente tudo que ele quiser, pelo o tempo que ele quiser que, se der sorte, pode ser que ele se apaixone por você. Palmas. (Não, não quero ouvir sua defesa sobre isso. Eu o li também.)

Veja bem, em momento nenhum estou levantando a bandeira do orgulho. Se ela não tem lá uma boa condição financeira, mas ele tem e quer ajuda-la, há mais preocupação do que submissão. Companheirismo é mutuo, crescente. Quem quer o bem, ajuda sem pedir nada em troca. Aí que está a verdadeira diferença. Não é uma troca de favores a curto prazo. Não é uma lavagem de roupa, uma comida caseira que irão suprir. A recompensa é mensurada em conquistas divididas, batalhas superadas à dois. Um bom relacionamento consiste numa via de mão dupla que dinheiro não paga. A vontade de crescer com alguém vai além das vitórias e, principalmente, das dificuldades.

Infelizmente, esse ainda não é um assunto que ser debatido na fila do pão. Não é distante da nossa realidade que avós e mães ainda criem suas filhas para serem alpinistas. Sabe o que isso quer dizer? Feitas pra chegar ao topo, obviamente, através de algum macho. Triste é ouvir da boca de quem teve supostamente uma boa educação, a errônea certeza de que para as mulheres só há dois jeitos de serem ricas: casando com quem tem dinheiro ou nascendo assim. Pra muitas delas, a menor perspectiva de ganho por conta própria é inexistente.

Sinceramente, eu as culpo. Escolheram o caminho mais fácil. Nem todo mundo tem salvação. Justiça quando lhe convém, é oportunismo. Igualdade quando lhe protege, é fraqueza. E cavalheirismo quando se torna obrigação, é medíocre.

 

AMOR É UM, SEXO SÃO DOIS.

 

Definitivamente, amor não se trata de sexo e tampouco sexo se trata de amor. Mas embora essas sejam verdades universais, ainda há quem se veja embevecido com a ideia de que um substitua o outro. Erro de estagiário. Não dá pra substituir o imaginário pelo real, perspectiva por gosto. Sejamos francos, a única coisa que diferencia um apaixonado de um esquizofrênico é a falta de capacidade do enfermo de provar que o que ele vê, existe. Quem vê rostos em objetos, vê amor em comodismo, até porque, cada um acredita no que quer. Assim sendo, a gente esquece do racional quando está envolvido na linda história contado por outro. E, principalmente, não nos damos conta que histórias de amor são contadas à dois e com uma pitada de sorte, podem-se tratar da mesma! Desce do cavalo branco, príncipe, afinal você já foi o Sergio Mallandro. E vai guardar o sapato que deixou no meio da escada, princesa. Aqui não tem nenhuma empregada tua.

A verdade é que amar é para os fortes. Você não escolhe, se desafia a não se apegar. É preciso ter mais perseverança do que orgulho pra se apostar tão alto. Aliás, sequer tem a ver com jogo. Amar é sobre timing. Aquele momento em que uma risada, uma jogada de cabelo, uma coincidência de gostos bizarros é tudo. Aquele em que você procura justificar de quem foi a culpa; se foi artimanha do destino ou ironia do coração. E, mais uma vez, termina com uma coletânea de lembranças guardadas à fino trato. Isso é timing; um divisor de águas, o momento de impacto. Em outras palavras, quando você ouve vidros estraçalhando-se, panelas caindo no chão e inevitavelmente percebe que se fodeu.

Bem aventurados aqueles que tem o tesão como escolha, que pouco se importam com bons costumes e maus hábitos. Que tem o apelo do corpo e da mente em que o espírito se faz de louco. Tem desejo, vontade e paixão. Aqui e agora. Não existe preconceito, nem raça. Não é preciso nome, nem um abraço amigável. Você pode ser direto, indiscreto, nu e cru na sua verdade. Ser você de trás pra frente com a alma exposta e a cara à tapa. É a química que libera substâncias que produzem a sensação da felicidade, acelera o coração e aumenta a excitação. Sexo só tem como futuro o calor dos corpos, o orgasmo e as sacanagens ao pé do ouvido. E satisfeitos um com o outro, vem o alívio. Sem cobrança, sem café da manhã.

O que te faz ficar saltitante não é o amor, é kangoo jump. Não é amor que te faz esquecer as dores, é a vodka. O que te deixa paralisado não é o amor, é o trânsito. O que te faz dormir em paz não é o amor, é Dramim. Não é o amor que te faz enxergar o mundo de outra forma, é o exame de vista. Nem é o amor responsável pelas suas borboletas na barriga e, sim, a fome. O frio na barriga, à vezes, é porque você está constipado e, não, apaixonado. O que te dá a chance de mudar o que está diante de você não é o amor, é o controle remoto. Nem toda retribuição de declaração é amor. Pode ser imposto de renda.

 

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